“Downswing, o lado invisível do poker”: os craques do poker brasileiro que revelaram downswings gigantescas
Terceiro texto da série relembra fases complicadas de grandes nomes do país
Nos dois primeiros capítulos da série “Downswing, o lado invisível do poker”, o Mundo Poker explicou o conceito de downswing, detalhou a matemática por trás da variância e mostrou por que períodos negativos fazem parte da carreira de qualquer profissional. Agora, no terceiro texto, relembramos relatos públicos de jogadores brasileiros renomados que enfrentaram longas fases de prejuízo e decidiram expor essa realidade.
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A mídia especializada em poker, tanto no Brasil quanto no exterior, adotou uma linha editorial mais cautelosa ao tratar perdas financeiras, evitando a exposição constante de resultados negativos. Quando os próprios jogadores optam por abrir números e compartilhar experiências, no entanto, o impacto é outro: os relatos servem como alerta para novos profissionais e ajudam a mostrar, sem filtros, o quão desafiador é construir e manter uma carreira no jogo.
Desde a criação do Mundo Poker em 2019, diversos depoimentos já foram publicados por aqui. Yuri Martins, Saymon Dias, Gabriel Schroeder, Felipe Ketzer, Luigi Soncin e Gabriel Nóbrega, jogadores extremamente vencedores e consolidados, donos de múltiplos títulos live e online, até de braceletes da WSOP, já falaram abertamente sobre downswings marcantes. Vamos recordar?
Um dos episódios mais conhecidos foi o de Felipe Ketzer. Durante a pandemia da Covid-19, o poker online viveu um boom global com aumento expressivo no volume de jogos e valores de buy-ins. Foi nesse período que o craque enfrentou uma das maiores downswings públicas do poker brasileiro, chegando a acumular pouco mais de US$ 500 mil de prejuízo.
Ele contou com todos os detalhes em um episódio do MundoTV Cast em 2022. Naquela altura, já havia dado a volta por cima.
“É um número super impactante, acho que provavelmente 99% dos jogadores não conseguiria lidar com isso. Eu vejo muito cara de time com make-up de US$ 10K, US$ 20K, US$ 40K e o cara já desmotiva de maneira absurda, acha que não vai buscar, começa a duvidar da própria capacidade. A questão psicológica, do mindset, é uma coisa bizarra. Vários dias chegava a noite e não sabia o que fazer, só com vontade de chorar. Parecia que não ia passar nunca”, relatou no vídeo.
“Poker só é divertido quando se ganha”. Foi com essa frase que Gabriel Schroeder, dono de bracelete da WSOP conquistado ao vivo em Las Vegas, abriu um forte desabafo em 2023 após dois momentos difíceis na carreira. Um dos períodos durou 22 meses ao longo de quase 15.000 (!) torneios disputados. No auge da downswing, ele revelou ter perdido US$ 60.000 em apenas 40 dias durante a pandemia. “Ali foi meu fundo do poço, onde mais duvidei da minha capacidade na vida toda”, escreveu.
O segundo período negativo ocorreu entre setembro de 2022 e janeiro de 2023. Embora não tenha divulgado valores, Schroeder afirmou que a recuperação veio após um resultado online de US$ 117.973.

Em maio de 2023, Saymon Dias decidiu tornar pública uma grande downswing com o objetivo de alertar jogadores iniciantes sobre a realidade da carreira nos MTTs. Ele compartilhou um gráfico referente a 16 meses de jogos, entre janeiro de 2022 e maio de 2023. Em determinado momento, chegou a estar US$ 80 mil no lucro, mas o recorte terminou com cerca de US$ 100 mil de prejuízo.
Segundo Saymon, a intenção era mostrar que “a vida do jogador de MTT não é tão fácil quanto parece”.

Dono de diversos resultados estrondosos tanto no online como no poker ao vivo, Gabriel Nóbrega apareceu nos holofotes em abril de 2024 quando cravou um torneio grande no ACR Poker para US$ 181.370. O título, porém, teve um significado ainda maior: foi o livramento de uma downswing enorme.
“Quem acompanha os resultados dos jogadores no poker acaba não fazendo ideia do lado ‘negativo’ do jogo. Esses últimos meses eu tava passando pela maior downswing da minha vida, junto com os torneios ao vivo foram mais de US$ 160.000. Foi exaustivo para caramba, parecia que não ia acabar nunca, mas quem joga poker sabe que a única solução é intensificar os estudos e trabalhar”, relatou na época.

Em agosto de 2025, foi a vez de Luigi Soncin expor uma downswing das mais pesadas publicamente. Acostumado a compartilhar reflexões e ensinamentos em seu perfil no Instagram, o craque veio a público mostrar os números. Após o encerramento do BSOP Winter Millions, ele contou estar enfrentando a maior downswing da carreira.
Naquela altura, ele disse estar em um período de prejuízo de US$ 310.000. Luigi deixou os detalhes bem explicados: foram 3.847 entradas em torneios e US$ 1,2 milhão investidos em buy-ins.

Yuri Martins
Yuri Martins sempre foi uma das vozes mais ativas quando o assunto é variância. Em 2021, ele publicou no Instagram um relato sobre a maior downswing da carreira até então: cerca de US$ 250 mil, jogando torneios com média de buy-in de US$ 1.000, portanto, o equivalente a aproximadamente 250 buy-ins. Ele deu dicas valiosas na publicação.
Com a evolução da carreira e a participação em eventos cada vez mais high stakes, os swings naturalmente cresceram. Em abril de 2024, em um vídeo da Reg Life, ele contou que nunca pegou uma downswing “de um milhão”, mas que já passou por perdas significativas de “centenas de milhares de dólares”.
“Tem domingos durante SCOOP, WCOOP, séries da GG junto que são bem caros. Tem domingos que são de mais de US$ 100.000. Já aconteceu de ‘bricar’ tudo num domingo. São US$ 100.000, mas são 20, 15 torneios. Chance de perder bastante é muito grande”, conta o craque em outro trecho.

Rafael Moraes, Will Arruda e Pedro Madeira
Em corte publicado no Youtube (que também foi inserido no primeiro texto desta série de reportagens), o trio do 4-bet Team Rafael Moraes, Will Arruda e Pedro Madeira também tratou o tema com naturalidade. Os três revelaram os maiores períodos de perdas da carreira.
“Pra vocês terem noção, nessa época, 2012, 2013, 2014, downswing de US$ 100.000 era quase que ‘imbuscável’. Era absurdo. Hoje eu jogando live, 25K, 10K, 5K, pegar uma downswing de 350K é absolutamente normal”, explicou.
Moraes revelou que a maior sequência negativa da carreira foi em torno US$ 500.000. Arruda relatou perdas máximas de cerca de US$ 200.000, enquanto Madeira contou sobre duas downswings. Uma de US$ 400.000 e outra anterior de US$ 180.000. O vídeo é de março de 2024.
Exemplos internacionais
Não são apenas os jogadores brasileiros que foram a público mostrar a realidade. Diversos jogadores estrangeiros, inclusive embaixadores de marcas do poker, contaram sobre os períodos de perda. Um dos casos emblemáticos foi o de Rayan Chamas, streamer bem conhecido pela alcunha de “Beriuzy”.
Chamas fez um vídeo longo de 14 minutos no Youtube contando sobre o aspecto psicológico ao enfrentar uma downswing pesada de US$ 500.000 em agosto de 2023. Posteriormente, o número chegou a atingir US$ 800.000. No início de 2025, Beriuzy já havia conseguido recuperar o ferro nas mesas.
O polêmico Nik Airball, americano acostumado a jogar sessões caríssimas de cash game, revelou em 2023 ter atingido uma downswing insana de US$ 8 milhões. “Parece muito ruim, mas os jogos têm sido muito grandes, então não é tão louco quanto parece. Recentemente, o jogo PLO está jogando em média US$ 1.000 / US$ 2.000”, afirmou na época.
O famoso vlogger Ethan Yau, o “Rampage”, publicou em julho do ano passado uma downswing fortíssima bem detalhada. Nos sete meses de 2025, ele acumulou uma perda em sequência de US$ 357.213. Foram seis meses no vermelho e apenas um mês no azul até aquele momento.
No final de fevereiro deste ano, Brad Owen, embaixador do WPT, também fez um forte desabafo. Em um texto publicado na íntegra pelo Mundo Poker, ele disse estar US$ 100.000 negativo logo nesses primeiros dois meses do ano após um 2025 de prejuízo. “Eu sinto que estou perdendo minha identidade e que sou um fracasso se não conseguir mudar isso logo”, escreveu em um trecho.

Os efeitos psicológicos da downswing
A downswing faz parte do poker, mas, como mostram os relatos acima, nem mesmo os jogadores mais experientes estão imunaes ao impacto emocional desses períodos.
No próximo capítulo da série, o foco será justamente esse aspecto mental e psicológico. O quarto e último texto da série traz a visão de duas especialistas da área: a mental coach Thaís Dresch e a psicóloga Daiana Guimarães, do Samba Team. Elas analisam como jogadores lidam psicologicamente com as inevitáveis fases negativas do jogo.
O que vem por aí?
15/04: Artigo #4: “psicóloga e mental coach abordam sobre os impactos emocionais da downswing”


