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“Downswing, o lado invisível do poker”: os craques do poker brasileiro que revelaram downswings gigantescas
Terceiro texto da série relembra fases complicadas de grandes nomes do país
Nos dois primeiros capítulos da série “Downswing, o lado invisível do poker”, o Mundo Poker explicou o conceito de downswing, detalhou a matemática por trás da variância e mostrou por que períodos negativos fazem parte da carreira de qualquer profissional. Agora, no terceiro texto, relembramos relatos públicos de jogadores brasileiros renomados que enfrentaram longas fases de prejuízo e decidiram expor essa realidade.
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A mídia especializada em poker, tanto no Brasil quanto no exterior, adotou uma linha editorial mais cautelosa ao tratar perdas financeiras, evitando a exposição constante de resultados negativos. Quando os próprios jogadores optam por abrir números e compartilhar experiências, no entanto, o impacto é outro: os relatos servem como alerta para novos profissionais e ajudam a mostrar, sem filtros, o quão desafiador é construir e manter uma carreira no jogo.
Desde a criação do Mundo Poker em 2019, diversos depoimentos já foram publicados por aqui. Yuri Martins, Saymon Dias, Gabriel Schroeder, Felipe Ketzer, Luigi Soncin e Gabriel Nóbrega, jogadores extremamente vencedores e consolidados, donos de múltiplos títulos live e online, até de braceletes da WSOP, já falaram abertamente sobre downswings marcantes. Vamos recordar?
Um dos episódios mais conhecidos foi o de Felipe Ketzer. Durante a pandemia da Covid-19, o poker online viveu um boom global com aumento expressivo no volume de jogos e valores de buy-ins. Foi nesse período que o craque enfrentou uma das maiores downswings públicas do poker brasileiro, chegando a acumular pouco mais de US$ 500 mil de prejuízo.
Ele contou com todos os detalhes em um episódio do MundoTV Cast em 2022. Naquela altura, já havia dado a volta por cima.
“É um número super impactante, acho que provavelmente 99% dos jogadores não conseguiria lidar com isso. Eu vejo muito cara de time com make-up de US$ 10K, US$ 20K, US$ 40K e o cara já desmotiva de maneira absurda, acha que não vai buscar, começa a duvidar da própria capacidade. A questão psicológica, do mindset, é uma coisa bizarra. Vários dias chegava a noite e não sabia o que fazer, só com vontade de chorar. Parecia que não ia passar nunca”, relatou no vídeo.
“Poker só é divertido quando se ganha”. Foi com essa frase que Gabriel Schroeder, dono de bracelete da WSOP conquistado ao vivo em Las Vegas, abriu um forte desabafo em 2023 após dois momentos difíceis na carreira. Um dos períodos durou 22 meses ao longo de quase 15.000 (!) torneios disputados. No auge da downswing, ele revelou ter perdido US$ 60.000 em apenas 40 dias durante a pandemia. “Ali foi meu fundo do poço, onde mais duvidei da minha capacidade na vida toda”, escreveu.
O segundo período negativo ocorreu entre setembro de 2022 e janeiro de 2023. Embora não tenha divulgado valores, Schroeder afirmou que a recuperação veio após um resultado online de US$ 117.973.

Gabriel Schroeder
Em maio de 2023, Saymon Dias decidiu tornar pública uma grande downswing com o objetivo de alertar jogadores iniciantes sobre a realidade da carreira nos MTTs. Ele compartilhou um gráfico referente a 16 meses de jogos, entre janeiro de 2022 e maio de 2023. Em determinado momento, chegou a estar US$ 80 mil no lucro, mas o recorte terminou com cerca de US$ 100 mil de prejuízo.
Segundo Saymon, a intenção era mostrar que “a vida do jogador de MTT não é tão fácil quanto parece”.

Dono de diversos resultados estrondosos tanto no online como no poker ao vivo, Gabriel Nóbrega apareceu nos holofotes em abril de 2024 quando cravou um torneio grande no ACR Poker para US$ 181.370. O título, porém, teve um significado ainda maior: foi o livramento de uma downswing enorme.
“Quem acompanha os resultados dos jogadores no poker acaba não fazendo ideia do lado ‘negativo’ do jogo. Esses últimos meses eu tava passando pela maior downswing da minha vida, junto com os torneios ao vivo foram mais de US$ 160.000. Foi exaustivo para caramba, parecia que não ia acabar nunca, mas quem joga poker sabe que a única solução é intensificar os estudos e trabalhar”, relatou na época.

Em agosto de 2025, foi a vez de Luigi Soncin expor uma downswing das mais pesadas publicamente. Acostumado a compartilhar reflexões e ensinamentos em seu perfil no Instagram, o craque veio a público mostrar os números. Após o encerramento do BSOP Winter Millions, ele contou estar enfrentando a maior downswing da carreira.
Naquela altura, ele disse estar em um período de prejuízo de US$ 310.000. Luigi deixou os detalhes bem explicados: foram 3.847 entradas em torneios e US$ 1,2 milhão investidos em buy-ins.

Yuri Martins
Yuri Martins sempre foi uma das vozes mais ativas quando o assunto é variância. Em 2021, ele publicou no Instagram um relato sobre a maior downswing da carreira até então: cerca de US$ 250 mil, jogando torneios com média de buy-in de US$ 1.000, portanto, o equivalente a aproximadamente 250 buy-ins. Ele deu dicas valiosas na publicação.
Com a evolução da carreira e a participação em eventos cada vez mais high stakes, os swings naturalmente cresceram. Em abril de 2024, em um vídeo da Reg Life, ele contou que nunca pegou uma downswing “de um milhão”, mas que já passou por perdas significativas de “centenas de milhares de dólares”.
“Tem domingos durante SCOOP, WCOOP, séries da GG junto que são bem caros. Tem domingos que são de mais de US$ 100.000. Já aconteceu de ‘bricar’ tudo num domingo. São US$ 100.000, mas são 20, 15 torneios. Chance de perder bastante é muito grande”, conta o craque em outro trecho.

Rafael Moraes, Will Arruda e Pedro Madeira
Em corte publicado no Youtube (que também foi inserido no primeiro texto desta série de reportagens), o trio do 4-bet Team Rafael Moraes, Will Arruda e Pedro Madeira também tratou o tema com naturalidade. Os três revelaram os maiores períodos de perdas da carreira.
“Pra vocês terem noção, nessa época, 2012, 2013, 2014, downswing de US$ 100.000 era quase que ‘imbuscável’. Era absurdo. Hoje eu jogando live, 25K, 10K, 5K, pegar uma downswing de 350K é absolutamente normal”, explicou.
Moraes revelou que a maior sequência negativa da carreira foi em torno US$ 500.000. Arruda relatou perdas máximas de cerca de US$ 200.000, enquanto Madeira contou sobre duas downswings. Uma de US$ 400.000 e outra anterior de US$ 180.000. O vídeo é de março de 2024.
Exemplos internacionais
Não são apenas os jogadores brasileiros que foram a público mostrar a realidade. Diversos jogadores estrangeiros, inclusive embaixadores de marcas do poker, contaram sobre os períodos de perda. Um dos casos emblemáticos foi o de Rayan Chamas, streamer bem conhecido pela alcunha de “Beriuzy”.
Chamas fez um vídeo longo de 14 minutos no Youtube contando sobre o aspecto psicológico ao enfrentar uma downswing pesada de US$ 500.000 em agosto de 2023. Posteriormente, o número chegou a atingir US$ 800.000. No início de 2025, Beriuzy já havia conseguido recuperar o ferro nas mesas.
O polêmico Nik Airball, americano acostumado a jogar sessões caríssimas de cash game, revelou em 2023 ter atingido uma downswing insana de US$ 8 milhões. “Parece muito ruim, mas os jogos têm sido muito grandes, então não é tão louco quanto parece. Recentemente, o jogo PLO está jogando em média US$ 1.000 / US$ 2.000”, afirmou na época.
O famoso vlogger Ethan Yau, o “Rampage”, publicou em julho do ano passado uma downswing fortíssima bem detalhada. Nos sete meses de 2025, ele acumulou uma perda em sequência de US$ 357.213. Foram seis meses no vermelho e apenas um mês no azul até aquele momento.
No final de fevereiro deste ano, Brad Owen, embaixador do WPT, também fez um forte desabafo. Em um texto publicado na íntegra pelo Mundo Poker, ele disse estar US$ 100.000 negativo logo nesses primeiros dois meses do ano após um 2025 de prejuízo. “Eu sinto que estou perdendo minha identidade e que sou um fracasso se não conseguir mudar isso logo”, escreveu em um trecho.

Brad Owen
Os efeitos psicológicos da downswing
A downswing faz parte do poker, mas, como mostram os relatos acima, nem mesmo os jogadores mais experientes estão imunaes ao impacto emocional desses períodos.
No próximo capítulo da série, o foco será justamente esse aspecto mental e psicológico. O quarto e último texto da série traz a visão de duas especialistas da área: a mental coach Thaís Dresch e a psicóloga Daiana Guimarães, do Samba Team. Elas analisam como jogadores lidam psicologicamente com as inevitáveis fases negativas do jogo.
O que vem por aí?
15/04: Artigo #4: “psicóloga e mental coach abordam sobre os impactos emocionais da downswing”
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“Downswing, o lado invisível do poker”: psicóloga e mental coach abordam sobre os impactos emocionais da downswing
Último texto da série aborda a visão de especialistas sobre o aspecto mental do jogo
Nos três primeiros artigos da série “Downswing, o lado invisível do poker”, o Mundo Poker explicou o conceito de downswing, exemplificou a matemática por trás da variância e relembrou relatos públicos de nomes consagrados do poker que enfrentaram longos períodos de prejuízo. Agora, o foco é debater sobre os impactos psicológicos e emocionais.
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Se a downswing é comprovadamente inevitável do ponto de vista matemático, o impacto psicológico ainda é um dos maiores desafios da carreira de um jogador profissional. Para compreender melhor o assunto, conversamos com duas especialistas que acompanham diariamente a rotina de grinders: a mental coach Thaís Dresch, que trabalha com o poker desde 2019, e Daiana Guimarães, psicóloga do Samba Team há seis anos.
Downswing pode ser a porta de entrada para a terapia
Daiana Guimarães contou para o Mundo Poker que o Samba Team abraçou a ideia do cuidado mental como prioridade. “Meu compromisso é ampliar o espaço para o debate sobre saúde mental dentro do time, trazendo o tema como algo tão essencial quanto o conteúdo técnico apresentado nas aulas”.
“Tenho total autonomia para atuar em diferentes frentes do time e, principalmente, conto com a abertura e receptividade dos players e sócios”, explica Daiana. Perguntada se a maior parte dos problemas está relacionada a sequência prolongadas de prejuízo, a psicóloga deu uma resposta interessante que mostra a evolução neste tema.
“A downswing pode ser o precursor do início da terapia, já que o jogador muitas vezes espera estar um momento de muita vulnerabilidade para buscar ajuda”, conta. “Porém, vale pontuar que isso tem acontecido cada vez menos. Está comum os jogadores me procurarem para auxiliá-los a criar cronogramas de estudo, trabalhar regulação emocional durante e pós-grind, questões pessoais, entre outros temas”, reitera.
Nosso cérebro não está preparado para uma downswing
Uma das grandes dificuldades emocionais da downswing nasce de um paradoxo: o jogador sabe que a variância existe, mas o cérebro humano não foi feito para lidar bem com isso. A mental coach Thaís Dresch deu um exemplo prático.
“Imagine, por exemplo, uma pessoa com intolerância à lactose. Ao ingerir laticínios, ela sente uma forte dor de estômago. Esse resultado negativo (a dor) atua como um feedback imediato que a desencoraja a repetir o hábito. É um processo evolutivo que nos permite aprender e evitar ações autodestrutivas”.
“No poker, entretanto, esse mecanismo é contraintuitivo. Você pode tomar a decisão tecnicamente correta e, ainda assim, ter um resultado negativo. O nosso lado emocional não processa bem que esse sofrimento e essa perda sejam “naturais”, mesmo que o lado racional entenda o conceito de variância. É quase um conflito com a nossa própria natureza e com o que aprendemos em milhares de anos de evolução da espécie”.
Questionamento sobre as próprias habilidades
A downswing que dura bastante tempo faz muitos jogadores questionarem as próprias habilidades. “Um dos primeiros pensamentos que o jogador tem: ‘Será que sou realmente bom?’, ‘Será que não tive sorte até aqui?’, ‘Qualquer hora vão perceber que não sou tão capaz’. Na terapia cognitiva comportamental falamos sobre a importância do autoconceito, aquilo que pensamos sobre nós mesmos, e, em momentos vulneráveis, colocamos à prova muitos questionamentos”, explica Daiana.
“Por isso a importância do autoconhecimento, pois, sem ele, podemos acreditar em qualquer pensamento disfuncional que nossa mente nos propõe e tratar isso como uma verdade absoluta. A terapia ajuda o sujeito a ampliar o seu repertório, questionar seus pensamentos e, então, criar estratégias para passar por tudo isso”, completa a psicóloga do Samba Team.
Thaís adotou uma linha semelhante. “O jogador começa a questionar se o seu conhecimento técnico ainda é válido, já que o resultado esperado não aparece. O primeiro impulso é internalizar a responsabilidade, especialmente em pessoas com perfil de alta autocobrança e perfeccionismo”.
Quando a downswing afeta as decisões
A maré ruim pode fazer muitos jogadores a tomarem decisões diferentes do habitual nas mesas. “Isso é muito frequente, especialmente em downswings prolongadas. Meses de perdas consecutivas minam a autoconfiança do jogador, gerando incerteza em spots que antes se sentiam mais seguros”, relata Thaís.
“O jogador pode passar a ter medo de se envolver em situações de alta variância, começando a jogar de forma excessivamente tight ou passiva, mas em alguns casos pode acontecer, em jogadores menos pacientes, de querer arriscar mais, numa tentativa de sair logo desse cenário de angústia pela falta de resultados”, completa a mental coach.
Daiana trouxe outro ponto para o tema. “Ninguém está isento das emoções ruins provocadas por um momento de downswing. Ainda é um jogo de pessoas, portanto sempre haverá emoções nas mesas, só que alguns têm mais recursos para passar por períodos ruins, sejam eles recursos técnicos, mentais ou financeiros”.
Como a psicologia ou o mental coach podem ajudar?
“O acompanhamento psicológico pode auxiliar desde a organização da rotina pessoal, regulação emocional, melhorar relações profissionais, criar grupos de estudo e até o monitoramento do grind. Mas a principal função que me vejo nesses momentos é ser uma boa ouvinte, oferecendo um espaço de acolhimento e não julgar esse jogador que já está mais fragilizado”, responde Daiana.
“Faço questão de ser uma psicóloga como qualquer outra deveria ser: com escuta atenta, acolhimento e estratégia”, finaliza a psicóloga do Samba Team.
Thaís explica o trabalho do mental coach: “atua ajudando o jogador a resgatar uma perspectiva racional e técnica sobre o jogo. O objetivo é fazê-lo identificar suas limitações atuais e traçar planos de ação que restabeleçam a autoconfiança, mantendo o foco na qualidade das decisões, e não no resultado imediato”.
“Além disso, o suporte profissional combate a sensação de isolamento. Conversar com alguém que entende as nuances do processo e ter suas ações validadas traz a clareza necessária para que o emocional não se desgaste tanto. Isso permite atravessar a fase ruim de forma mais leve. O mental coach também trabalha preventivamente, aumentando a resistência emocional do jogador através da exposição a pequenos estressores controlados, fortalecendo sua tolerância aos estímulos adversos que são inevitáveis na carreira profissional”, conclui Dresch.
O lado invisível continua sendo humano
A downswing sempre vai fazer parte do poker. Nenhuma evolução técnica ou solver será capaz de derrubar a variância. O que vem mudando, no entanto, é a forma como os jogadores lidam com ela. Como demonstraram Daiana e Thaís, esse “sofrimento” não é mais silencioso. O debate sobre saúde mental ganhou espaço dentro dos times e da comunidade. A capacidade emocional precisa estar tão afiada quanto o conhecimento técnico para performar no poker.
No fim das contas, como ressaltou Guimarães, o poker continua sendo um jogo jogado por pessoas.
Mundo Poker DOC
“Downswing, o lado invisível do poker”: a matemática da variância que escancara as oscilações naturais do jogo
Mundo Poker vai abordar o tema em uma série de quatro reportagens
Na primeira matéria da série “downswing, o lado invisível do poker”, explicamos o que é downswing e também o conceito de EV, importantíssimo para compreender todo esse cenário. Neste segundo artigo, a abordagem será sobre variância. Assim como os dois primeiros, tema vital para qualquer jogador que deseja percorrer uma carreira no poker.
O que é variância?
Variância se refere à medida estatística de como seus resultados irão variar em relação à média ou ao resultado esperado durante um recorte específico. Ela explica por que decisões corretas podem gerar prejuízo temporário e por que decisões ruins às vezes ainda terminam em lucro. É o grau de dispersão entre os resultados reais e o valor esperado (EV) de um jogador ao longo de uma amostragem de jogos.
Exemplos práticos
Daniel Almeida, sócio do Midas Team e reconhecido pela comunidade do poker como um dos mais técnicos jogadores do país, colaborou com exemplos simples para compreender a matemática por trás da variância. A simulação feita foi em um jogo objetivo de cara ou coroa.
Valor Esperado e variância no curto prazo
Um experimento simples: um jogo de cara ou coroa no qual o jogador recebe R$ 5 quando ocorre “cara” e perde R$ 2 quando ocorre “coroa”. A questão central é determinar se esse jogo é estatisticamente lucrativo.
Podemos analisar isso por meio do Valor Esperado (Expected Value), definido como:
EV = Probalidade (ganho) · (ganho) + Probabilidade (perda) · (perda)
Como a moeda é justa:
EV = 50% · (+5) + 50% · (−2)
EV = 2,5 − 1 = +1,5
Portanto, o valor esperado do jogo é +R$ 1,50 por rodada. Isso significa que, em média, a cada repetição do experimento, o ganho esperado é de R$ 1,50.
Entretanto, um valor esperado positivo não implica lucro garantido em todas as sequências de curto prazo. O EV é uma medida de tendência de longo prazo, associada à Lei dos Grandes Números.
Considere agora três lançamentos independentes da moeda:
O valor esperado total para três rodadas é
EV₃ = 3 × 1,5 = 4,5
Ou seja, o ganho esperado médio é de R$ 4,50 após três lançamentos.
No entanto, os resultados possíveis são (C é cara e K é coroa):
CCC → 5 + 5 + 5 = R$ 15
CCK → 5 + 5 − 2 = R$ 8
CKC → 5 − 2 + 5 = R$ 8
KCC → −2 + 5 + 5 = R$ 8
CKK → 5 − 2 − 2 = R$ 1
KCK → −2 + 5 − 2 = R$ 1
KKC → −2 − 2 + 5 = R$ 1
KKK → −2 − 2 − 2 = R$ −6
Observe que em 50% (4 de 8) das sequências o resultado fica acima do valor esperado de R$ 4,50, enquanto em 50% fica abaixo do esperado. Em 12,5% (1 de 8) dos casos (KKK), o resultado é negativo.
Assim, mesmo em um jogo com valor esperado positivo, existe probabilidade não desprezível de prejuízo no curto prazo. No exemplo de três lançamentos, há 12,5% de chance de resultado líquido negativo.
A conclusão fundamental é que o valor esperado descreve a lucratividade estrutural do jogo ao longo de muitas repetições, mas não elimina a variabilidade inerente às amostras pequenas. É justamente essa variância que explica por que resultados negativos podem ocorrer mesmo em contextos estatisticamente favoráveis.

Dan Almeida trouxe exemplos pertinentes para explicar tamanho da variância no poker
Simulação no poker
Esses números ficam assustadores quando estudados dentro do universo do poker. No experimento anterior, o ROI (Retorno sobre o Investimento) do cara ou coroa naquele formato é de 75%. Um ROI altíssimo. De acordo com Daniel Almeida, os jogadores de poker online tem um ROI médio de 15% em torneios.
Em nova simulação, um jogador com 15% de ROI joga um total de 5.000 torneios com buy-in médio de US$ 50. O valor esperado (EV) desse jogador é de US$ 37.500, mas os swings (tanto positivo como negativo) podem ser gigantes. Mesmo que o valor esperado seja de US$ 37.500, isso não significa que o jogador vai ganhar exatamente esse valor.
Na prática, os resultados podem variar bastante ao longo do caminho, podendo oscilar mais de US$ 100.000 para cima ou para baixo. Considerando a variabilidade natural dos resultados, é razoável esperar que, na grande maioria das vezes (cerca de 99,7% de acordo com a calculadora do PrimeDope), o resultado final fique entre -US$ 46.615 (negativo) e +US$ 147.336 (positivo). Ou seja, mesmo com uma expectativa positiva, ainda existe uma chance real de terminar no prejuízo. Isso faz parte da variação normal dos resultados.

Yuri Martins escancara o tamanho da variância
O craque Yuri Martins brilhou no PokerGO Tour de Mixed Games e no Super High Roller Bowl em Las Vegas recentemente. A semana mágica do craque rendeu mais de US$ 2,2 milhões. Em um bate-papo com Mario Junior, Gustavo Mastelloto e Guga Fakri, o astro do poker brasileiro falou sobre os bastidores dessas conquistas por mais de duas horas.
Yuri costuma falar bastante de variância em seus vídeos e, novamente, abordou o assunto de maneira bastante didática. Ele deu um exemplo sensacional sobre o período que faz parte do 9Tales – grupo de estudos e pool com outros craques do poker brasileiro – quando fizeram uma conta que escancara o tamanho da variância que um jogador (habilidoso) pode enfrentar.
LEIA MAIS: Sequência de quatro heads-ups consecutivos culmina com cravada histórica e segundo maior prêmio da carreira de Yuri Martins
“Nós éramos em seis (jogadores) e a gente fez uma análise com ROI médio de 10% jogando super high stakes online. A gente tinha três anos de caminhada juntos. Em três anos era possível que um de nós tivesse saído down (no prejuízo). Mesmo tendo um ROI esperado de 10%. E era possível que um de nós saísse lá com 30 ou 40% de ROI positivo”.
“Em três anos a gente deve ter feito uns 4.000 torneios cada um. 4.000 torneios!”, exclamou Yuri. E ele jogou o número para o poker ao vivo: “quanto tempo você vai demorar para fazer isso no poker live?”. Jogando um torneio ao vivo todos os dias do ano, esse número de 4.000 torneios seria atingido em 11 anos. Assustador, não?
Daniel Almeida fez uma simulação parecida para o poker ao vivo. Com os mesmos indicativos do exemplo anterior (15% de ROI), ele considerou um universo de 600 torneios disputados – um número bem alto para a vida de qualquer jogador no live. A resposta da ferramenta utilizada para conta indicou uma chance de 41,93% de chance de terminar no prejuízo dentro dessa amostragem. Mesmo com um ROI de 15%!
A matemática não mente: todo jogador de poker vai conhecer, mais cedo ou mais tarde, uma downswing. Alguns nomes famosos do poker brasileiro tornaram públicos seus piores momentos da carreira em forma de alerta ou até mesmo de desabafo. No terceiro texto desta série, vamos relembrar diversos casos de downswings gigantes de grandes jogadores que falaram publicamente sobre.
O que vem por aí?
08/04: Artigo #3: “os craques do poker brasileiro que revelaram downswings gigantescas”
15/04: Artigo #4: “psicóloga e mental coach abordam sobre os impactos emocionais da downswing”
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“Downswing, o lado invisível do poker”: o que é downswing no poker e por que é importante entender o conceito
Mundo Poker vai abordar o tema em uma série de quatro reportagens
Downswing. Praticamente todos que fazem parte do ecossistema do poker já ouviram e muito provavelmente já vivenciaram em algum momento da carreira. É inevitável. O tema aparece em conversas de todos os níveis, da resenha entre amigos aos grupos mais avançados de estudos. Chegou a hora de você entender de uma vez por todas o que realmente significa.
Em uma série especial de quatro reportagens, o Mundo Poker vai explorar o conceito de uma forma diferente. O objetivo é transformar esses textos em um guia prático de aprendizado para que iniciantes entendam melhor a natureza do jogo e a importância de compreender esse e outros conceitos do jogo o quanto antes.
Afinal, o que é downswing?
Downswing é um período prolongado de resultados negativos no poker. É quando um jogador passa por uma sequência de perdas. É a manifestação prática da variância negativa ao longo de uma amostra de jogos.
Como isso pode acontecer?
O poker é reconhecido estatisticamente como um jogo de habilidade no longo prazo, mas os resultados de curto e médio prazo não dependem apenas de habilidade. Você pode estar jogando o poker de maneira quase perfeita, mas nem assim estará imune ao elemento de aleatoriedade das cartas e das probabilidades.
Você pode perder vários all ins consecutivos como favorito, não consegue converter sessões jogando seu A-Game em lucro e, consequentemente, entra numa maré de prejuízo. Entenda de uma vez por todas: isso é extremamente normal e acontece com todos os jogadores. Ninguém está imune a uma downswing.
Em um jogo baseado em probabilidades, sequências negativas não são exceção, mas sim parte natural da distribuição dos resultados.
Por enquanto fácil, né? Agora vem outro termo importante…
O que é EV?
EV (Expected Value ou valor esperado) representa o resultado médio que uma decisão vai gerar no longo prazo. É uma forma matemática de medir se uma jogada é lucrativa independentemente do resultado imediato. Um jogador pode perder uma mão específica, mas mesmo assim pode ter tomado, no fim das contas, a melhor decisão em termos de EV. O cenário em questão, repetido milhares de vezes, tende a dar lucro.
É muito comum ver jogadores extremamente técnicos como Yuri Martins e Felipe Boianovsky, por exemplo, usando o termo “EV” ou “EV positivo” em suas explicações mais aprofundadas. Grande parte das decisões no poker é baseada em EV. Compreender o significado ajuda a entender toda a natureza do jogo.
Compreender o EV permite separar desempenho de resultado. É justamente essa diferença que explica por que bons jogadores também atravessam longos períodos de perdas. Daniel Almeida, um dos jogadores mais técnicos do país, explica nesse vídeo abaixo o conceito de EV de maneira bastante didática:
“O cara que nunca tomou umas duas downswings fortes e buscou ainda não sabe o que é jogar poker”
Nesse vídeo abaixo, Rafael Moraes, Pedro Madeira e Will Arruda, três dos mais experientes e melhores jogadores do Brasil, abordaram o tema de maneira bem abrangente e até revelaram o valor de seus piores momentos de perdas. A frase em aspas é de Will Arruda, um dos fundadores do 4-bet Team.
Entender o conceito de downswing é apenas o pontapé inicial. A parte realmente difícil vem depois: como diferenciar uma fase natural da variância dos erros reais no próprio jogo? Você vai descobrir nas futuras reportagens da série “Downswing, o lado invisível do poker”.
O que vem por aí?
01/04: Artigo #2: “a matemática da variância que escancara as oscilações naturais do jogo”
08/04: Artigo #3: “os craques do poker brasileiro que revelaram downswings gigantescas”
15/04: Artigo #4: “psicóloga e mental coach abordam sobre os impactos emocionais da downswing”
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