Tô Na Área #70: De camelô à glória no Sunday Million — a trajetória inspiradora de Carlos Augusto

Campeão do Sunday Million relembra as origens e projeta o futuro no poker

Carlos Augusto
Carlos Augusto
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O quadro Tô Na Área de entrevistas do Mundo Poker chega à 70ª edição com mais uma história inspiradora. O convidado da vez é Carlos Augusto, jogador profissional de 33 anos e integrante do Suits Poker Team, que recentemente conquistou o título do Sunday Million de Aniversário — um dos maiores torneios do poker online mundial.

Natural de Umuarama (PR), mas criado em Campo Grande (MS), Carlos tem uma trajetória marcada pela superação. Antes do poker, trabalhava como camelô com a mãe no camelódromo da cidade e chegou a iniciar o curso de fisioterapia na UFMS. Com o tempo, encontrou nas cartas uma nova vocação — e hoje vive exclusivamente do jogo, dividindo a rotina de grind com a função de coordenador de retas no Suits.

A trajetória no poker começou de forma despretensiosa, como acontece com muitos: jogando entre amigos e assistindo as reprises do World Poker Tour nas madrugadas. Mas foi ao cravar um Sit & Go que o jogo virou.

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Confira a entrevista completa com Carlos Augusto para o quadro Tô Na Área:

MP: Carlos, conta pra gente: quem é você fora das mesas? Onde nasceu, quantos anos tem, e o que fazia antes de ser jogador profissional de poker?

Carlos: “Bom, muito prazer! Meu nome é Carlos Augusto, tenho 33 anos, sou natural de Umuarama, no Paraná. Mas desde novo moro aqui em Mato Grosso do Sul, em Campo Grande, na capital.

Antes de conhecer o poker e enfim virar jogador profissional, eu era camelô. Trabalhava com minha mãe no camelódromo aqui da cidade, na feira central. A gente tinha uma banca de óculos.

Pouco antes de fazer essa transição pro mundo do poker, eu tinha iniciado a faculdade de fisioterapia na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul.”

MP: Como o poker entrou na sua vida?

Carlos: “O poker entrou na minha vida como entra na maioria das pessoas, né? Às vezes os amigos comentavam e aí a gente começou a jogar, a aprender a jogar com as fichinhas que a gente tinha, aquela maletinha de fichas.

Começamos a acompanhar também, lembro que na madrugada passava a reprise do World Poker Tour e a gente assistia. Pô, era muito legal! Tudo muito novo. E aquilo foi gerando um interesse cada vez maior. Aí a gente começou a jogar mais, se encontrava nos finais de semana pra jogar e dali veio o interesse de buscar mais informações. Foi aí que eu conheci os sites de poker, descobri que existia um mundo enorme por trás daquilo tudo que a gente não fazia ideia.”

MP: Você se lembra do seu primeiro resultado relevante que te fez pensar: “posso viver disso”?

Carlos: “Pra falar a verdade, o primeiro resultado relevante em si, que me fez até querer me aprofundar mais, foi uma cravada de um Sit & Go de US$ 2,50. Não era um valor significante, acho que eram US$ 125 ou algo do tipo, mas me abriu os olhos e eu vi o potencial que aquilo ali tinha, até para eu poder me especializar, enfim, virar um regular ali dessa modalidade de torneios.

Aquele momento me abriu os olhos e eu acho que foi ali que eu comecei a me profissionalizar mesmo. Eu vim do Sit & Go, multi tables e depois eu migrei ali pros torneios, mas eu acho que essa cravada, mesmo que pequena, eu lembro como se fosse hoje, eu estava na casa de um amigo meu, jogando no notebook, numa cadeira de madeira, daquelas de cozinha, com o notebook apoiado na cômoda do meu amigo, então com essa cravada eu pensei: “nossa, vamos lá, acho que a partir daqui a gente consegue fazer alguma coisa e se especializar nisso.”

Vida profissional no poker e atuação dentro do Suits Poker Team

MP: Hoje você vive exclusivamente do poker?

Carlos: “Sim! Hoje eu vivo exclusivamente do poker. Tenho uma função também dentro do meu time, o Suits Poker Team, onde trabalho com a parte de retas, cuidando dos torneios em que os jogadores podem jogar.

Sou responsável por colocar cada jogador nos seus devidos ABI (Average Buy-In/Buy-In Médio), planejar as retas e acompanhar a performance. Além disso, sou jogador profissional também. Já fazem alguns bons anos que eu vivo exclusivamente disso.”

MP: Você representa o Suits Poker Team. Como começou essa parceria com o time? Como é a rotina dentro da equipe?

Carlos:  “A parceria começou, se não me engano, em abril de 2022. Eu fazia parte de um time pequeno, com três ou quatro jogadores. Um amigo meu, o Roger, que era próximo do Saulo, sentia junto comigo que a gente estava meio estagnado por ser um time pequeno, e faltava alguma coisa, um ambiente melhor pra gente se desenvolver.

Foi aí que o Roger fez a ponte com o Saulo. A gente trocou uma ideia, teve uma reunião, e eles gostaram muito da gente. Acabamos sendo comprados pelo Suits Poker Team — e dali pra frente, foi só alegria. O ambiente era completamente novo pra mim. Nunca tinha jogado em um time grande, sempre estive em times menores. De repente, me vi num cenário estruturado, com aulas, cronograma, acompanhamento… tudo muito bem organizado. Ali eu percebi que era isso que um jogador de poker precisava para evoluir de verdade, para progredir profissionalmente.

Encontrei também um ambiente super acolhedor. A galera está sempre prestando suporte, você nunca se sente sozinho. E o Saulo, mesmo sendo o dono e tendo mais de 50, 60 jogadores no time, está sempre presente. Ele realmente acompanha todo mundo, participa, sabe quem é quem. Isso é um diferencial absurdo. Ter esse senso de pertencimento, essa conexão com o time, é algo que faz toda a diferença.”

O título do Sunday Million de Aniversário: um sonho realizado

MP: Agora vamos falar do momento histórico: como foi cravar o Sunday Million de Aniversário? Já caiu a ficha?

Carlos: “Sobre ser campeão de aniversário, não tem como dizer que não muda nada. Algumas coisas mudam, mas não muda o fato de que eu ainda tenho muito a melhorar, evoluir como jogador, né? Então, óbvio que é um feito, mas eu tenho muito trabalho pra fazer, muita coisa pra estudar, muito que melhorar. A ideia é seguir firme no trabalho que venho fazendo.

Continuar batendo o ABI que estou jogando, buscar o próximo passo, me firmar em um ABI mais alto, matar esse novo ABI… E assim a gente vai subindo, de degrau em degrau.

Acho que ser campeão do Sunday Million não faz de mim o melhor jogador do mundo. É só um feito muito legal. Então, manter o pé no chão e continuar na mesma pegada. Esses últimos dias foram mais corridos por vários motivos, mas o trabalho segue. É voltar à rotina normal.

Talvez alguns projetos novos, como voltar a fazer lives, algo que já fiz alguns anos atrás. Quem sabe retomar meu canal… Enfim, tem ideias em mente, vamos ver se consigo colocar em prática. Vai ser bem legal!
Eu não tenho palavras pra descrever. De verdade. Confesso que, até agora, dias depois, ainda fico pensando: ‘Caramba, eu ganhei mesmo o Sunday Million de Aniversário. É uma loucura’.

É um sentimento indescritível. Nem nos meus melhores sonhos imaginaria que tudo aconteceria assim, tão perfeito. Foi um dia histórico! Têm sido dias marcantes demais. Quando lembro de toda a luta, dos momentos em que bati na trave, é impossível não me emocionar. Às vezes me pego pensando: ‘Fui eu mesmo que consegui?’. Foi surreal. Muito louca essa sensação. Só consigo agradecer e dizer: meu Deus, eu consegui mesmo.”

MP: Como foi a reação da sua família, amigos e do time com essa conquista?

Carlos: “Olha, esse foi um momento muito, muito especial. Eu fui campeão do torneio e, naquele instante, a gente está tão focado que nem tem noção do que está acontecendo. A ficha ainda não tinha caído… Até que fui dar uma olhada no Discord e vi que o time inteiro estava me assistindo em um canal por lá. Entrei pra comemorar com eles, comecei a ouvir as mensagens, o pessoal parabenizando, vibrando… E aí sim começou a cair a ficha. Foi um momento muito emocionante, eu comecei a chorar demais.

A primeira coisa que quis fazer foi ligar pra minha mãe. Fiz uma chamada de vídeo com ela — só que eu estava de fone e não escutava nada. Tirei o fone do ouvido, o microfone ficou aberto, e eu chorando… Coitada, achou até que tinha acontecido alguma coisa. E eu falando: ‘Mãe, eu consegui! Mãe, eu ganhei! Eu fui campeão!’. Eu estava chorando muito e ela também começou a chorar junto comigo, de felicidade.

Minha mãe é uma pessoa que ora por mim todos os dias. Sempre torceu por mim. Era um sonho poder compartilhar esse momento com ela, em vida. Foi mágico. De verdade, muito especial.

E o mais bonito é que não foi só ela. Muita gente se emocionou. Tinha várias pessoas no Discord chorando comigo. Foi um momento mágico, de verdade. Acho que realizei o sonho de muita gente. E, principalmente, o meu. Foi surreal. Um sentimento bom demais. Inesquecível.”

MP: Quais são os seus objetivos no poker atualmente?

Carlos: “Quero deixar claro que o trabalho não parou. Não me aposentei, viu? Ainda tenho muita coisa pra conquistar! Tem o SCOOP, o WCOOP… Quero buscar novos feitos, novas metas.

Quero pedir pra galera ficar atenta, porque vem um projeto novo por aí. Tem desafio chegando, talvez algo na Twitch ou em alguma outra plataforma. Tive algumas ideias bem legais!

E, claro, conto com o apoio de vocês. Conto com a presença de todo mundo que me acompanha. Quero muito poder retribuir todo o carinho que recebi. Se eu puder agregar de alguma forma pra quem me segue, já fico feliz demais.”

MP: Qual conselho você daria para quem está começando no poker agora?

Carlos: “Um conselho que eu daria — ou melhor, vários: se prepare. Não é um caminho fácil, então não cai nessa lábia de que tudo é lindo e que é só dinheiro fácil.

As coisas não acontecem de forma rápida. A gente torce pra que aconteça, claro, mas na maioria das vezes demora. O poker é um jogo de longo prazo. E, muitas vezes, o melhor jogador não vai ganhar o torneio — isso é algo importante de entender.

Então, estude. Estude muito. Comece pela teoria. Entenda como o jogo funciona, como as decisões são tomadas, o porquê de cada jogada. A teoria é a base. Todo jogador precisa estudar o máximo possível, e aí sim aplicar os desvios conforme o field e o metagame.

Ah, e uma dica que todo mundo fala — mas vale reforçar: sempre que possível, guarde um dinheiro. Você pode passar por períodos longos sem ver grana entrando, mesmo sendo um bom jogador. A variância do jogo é cruel e, se você não estiver bem financeiramente, isso pode afetar diretamente o seu desempenho. O psicológico pesa no ROI, se preparar tecnicamente e mentalmente é fundamental!

Então, estude muito, encontre a motivação por trás do que está fazendo. Esteja cercado de pessoas que te incentivam, que querem crescer junto com você. O ambiente faz muita diferença. Fique perto de quem te puxa pra cima — isso conta demais pro seu desenvolvimento.

E, acima de tudo: confia. Confia no seu processo, no que você está construindo. Pode até parecer papo de coach, mas é real. Se você tiver um plano, estudar, trabalhar duro e tiver fé — vai acontecer. Deus sempre reserva o melhor pra quem segue firme, de cabeça erguida. Cada dia é uma nova oportunidade.”

MP: Quer deixar uma mensagem final para a galera que acompanha sua trajetória?

Carlos: “Ah, eu só queria agradecer, do fundo do meu coração, a todo mundo que estava ali torcendo por mim, mandando boas energias. Tenho certeza que isso foi essencial para que tudo acontecesse da forma como aconteceu.

As coisas deram certo, eu busquei dar o meu melhor, então fico muito feliz e muito grato por cada mensagem recebida, por cada torcida, por cada vibração positiva. Isso é uma das coisas mais gostosas que existem. Conseguir ser campeão desse torneio… putz, é bom demais!

Estou muito, muito grato por todo mundo. Pelo suporte do time Suits, do meu grupo de estudos… E olha, não vou citar nomes porque não quero cometer a injustiça de esquecer alguém.

Então, a todos que estiveram comigo desde o início — desde quando comecei no poker — meus instrutores, quem já foi meu backer, meus colegas de time (os antigos e os atuais), e os amigos que fiz ao longo dessa trajetória… minha gratidão é imensa.

Obrigado a todo mundo que acreditou em mim de alguma forma, que foi meu parceiro de trincheira em algum momento. Foi tudo muito mágico. E quem torceu por mim tornou esse momento ainda mais especial. Muito obrigado, de verdade.”

Confira o episódio #103 do Poker de Boteco com Ricardo Copag: